Artigo

O tsunami da transformação digital

Trata-se do grande equalizador, muito além de unicórnios e aplicativos da vez

Julio Vasconcellos

Economista, é sócio do fundo de venture capital Atlantico; foi fundador do Peixe Urbano e do Canary e primeiro representante do Facebook no Brasil

Em “O Sol Também se Levanta”, de Ernest Hemingway, um empresário explica como faliu: “Gradualmente e, então, de repente”. São recorrentes as histórias de respeitados negócios que têm sido derrubados pela onda da transformação digital. A velocidade da transformação já estava acelerando, mas, com a pandemia, a onda virou um “tech tsunami”.

Todo os anos fazemos um estudo extenso de centenas de indicadores para entender o estado atual da transformação digital. Em 1º de outubro último, pela primeira vez decidimos abrir os resultados ao público na conferência anual da empresa de educação executiva Startse e mostrar como o avanço da tecnologia ocorre de forma exponencial. Aqui compartilhamos alguns dos aprendizados mais marcantes.

Para não atribuir toda evolução ao coronavírus, é importante lembrar que o Brasil já está nessa jornada há mais de uma década. Avaliamos que o valor das empresas de tecnologia como percentual do PIB triplicou na última década. Mesmo assim, estamos longe de um teto. Enquanto o Brasil está com 3% de penetração de tecnologia, os Estados Unidos chegam a 39%, e a Índia, emergente como nós, bate os 13%.

Percebemos a transformação digital no varejo há tempos. Quando cruzamos dados da Euromonitor com a MCC-ENET, que levanta indicadores do mercado online brasileiro, vimos a participação do e-commerce no varejo aumentar 5% na última década, chegando a 7% no início da pandemia, em março. Em seguida, avançamos em dez semanas os mesmos 5% que havíamos percorrido em dez anos. Em maio, estávamos em 12,6%, antes de o comércio reabrir e voltarmos a números ainda bem acima da tendência histórica.

No sistema financeiro, o Nubank, líder dos bancos digitais, também caminha a passos largos. Demorou dois anos para chegar ao seu primeiro milhão de clientes e hoje, já com 25 milhões, adiciona 1 milhão de clientes a cada mês.

Após a pandemia, estima-se que 20 milhões de brasileiros tenham se “bancarizado” por conta da ajuda emergencial distribuída, em grande parte, por meio de canais digitais (o aplicativo Caixa Tem foi baixado 30 milhões de vezes, de acordo com nossa análise de dados do Appfigures).

Para prever o curso da digitalização, vale olhar para onde o capital financeiro e humano estão fluindo. No caso do primeiro, a tendência é clara: investimentos em venture capital no Brasil superaram US$ 2 bilhões, depois de quase dobrarem anualmente por três anos seguidos. Fontes de capital mais conservador também apontam uma forte migração. Em entrevistas, 30 das famílias mais ricas do país nos afirmaram a intenção de dobrar a alocação de investimentos de venture capital, nos próximos cinco anos, para participarem da imensa criação de valor que traz a digitalização.

Quanto ao capital humano, em pesquisa com cerca de 2.000 alunos das faculdades mais seletivas, ouvimos de 26% deles a vontade de trabalhar em empresas de tecnologia. Não só isso: 36% declararam sua intenção de empreender. Os incumbentes que se segurem.

A digitalização tem facilitado o acesso, tanto físico quanto financeiro, à educação. A Faculdade Descomplica oferece cursos de graduação e pós-graduação a distância por um preço 70% abaixo do de faculdades tradicionais —um valor viável para uma faculdade que nasce 100% digital. O número de alunos no ensino a distância foi multiplicado por dez vezes na última década, e agora, com a crise sanitária, esse crescimento acelerou.

É fácil ficar perdido em dados e esquecer que por trás de cada número existe uma história. Em junho, Dona Lúcia se matriculou no curso de pedagogia do Descomplica. Dona Lúcia, que só terminou o ensino médio depois dos 40 anos, agora quer atuar como professora na mesma escola pública em que trabalha como faxineira há mais de 25 anos.

A transformação digital é o grande equalizador. Vai além do glamour dos unicórnios e do aplicativo da vez. Histórias como a de Dona Lúcia são retratos de uma maioria num país onde 25% da população vive na pobreza, mais que metade dos adultos não terminam o ensino médio e 14 milhões estão desempregados.

Quando paramos de buscar figuras mitológicas, e começamos a enxergar o contexto maior, a promessa da digitalização fica mais evidente: um futuro melhor, mais igual e acessível para todos.

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FOLHA DE S.PAULO

 

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