Artigo

A crise e a nova realidade da Certificação Digital

Por Bruno Linhares

A pandemia causada pelo novo coronavírus traz uma diferença fundamental em relação a outras da mesma gravidade em períodos anteriores, como a “Gripe Espanhola”, as epidemias de varíola, febre amarela e mesmo a “Peste Negra” medieval – o desenvolvimento da ciência e a revalorização das relações humanas permitiram que as sociedades optassem por preservar a vida e buscar evitar a contaminação e a mortalidade em escala de milhões, como ocorrido em outras ocasiões.

O efeito concreto e moral desta opção frente a atual crise sanitária marca um momento essencial neste período histórico – o fim do Século XX e o início real do Século XXI, já que os movimentos históricos nem sempre acompanham a cronologia arbitrária do calendário humano. A Primeira Grande Guerra Mundial também demarcou o fim do Século XIX, abrindo as portas para as novas experiências vividas pela espécie humana e pelo o Planeta Terra no novo século que se abria.

Crises dessa natureza e gravidade causam transformações profundas em hábitos, práticas, processos, políticas, negócios e relacionamentos. Muitos dizem que o mundo que conhecemos até 2019 não mais existirá mesmo quando os efeitos do vírus cessarem. E, como sempre, uma parte das mudanças previstas já era antevista no período anterior e outras, são totalmente inesperadas. Estaremos assistindo e participando de muitas alterações no modo de vida e na maneira como encaramos o mundo.

Uma das tendências cada vez mais presente e confirmada é a da virtualização das interações entre as pessoas. Desde o surgimento da internet, do e-commerce, do internet banking, das redes sociais e aplicativos nos aparelhos celulares, uma parte essencial da comunicação passou a ser interativa e pela web. Neste momento da interdição do convívio próximo, a virtualização ganha terrenos antes inexplorados – somente na nessa última semana, participei de duas festas de aniversário virtuais e de um encontro de amigos à distância. Hoje, foram cinco reuniões de trabalho por vídeo conferência.

Um dos grandes desafios sempre tem sido possibilitar a integridade da comunicação pela internet, vide toda a sorte de “fake news” e golpes e trapaças utilizando os mais diversos mecanismos online. Garantir a veracidade da identificação e da mensagem é uma tarefa essencial para a expansão do uso da internet na comunicação formal e este é o papel da ICP-Brasil e de todas as empresas que compõe este mercado.

Agora, os métodos de atendimento e emissão de certificados digitais, cercados de todos os cuidados e precauções para permitir o atingimento das nossas baixíssimas taxas de fraude (menos de 0,0008%) são desafiados a permitir o atendimento virtual, com abstenção ao menos temporária de salvaguardas como a conferência de informações biométricas. Entre garantir maior precaução contra a doença e a morte ou reduzir certos parâmetros de segurança, a resposta é óbvia.

Hoje temos condições de emissão de certificados de modo totalmente virtual. Sem entrar nas questões dos riscos, esta nova modalidade irá ter grande atratividade para nosso público alvo. Neste momento, por motivos evidentes. Posteriormente, ao garantir um método mais simples e direto de atendimento, reduzindo o tempo e o esforço para uma atividade que em si não representa uma experiência de consumo agradável. Se compararmos a compra e emissão de um certificado digital com outros tipos de produto, poderemos verificar que o atendimento presencial em certificados não tem o mesmo valor do que, por exemplo, a escolha de uma roupa ou de um artigo de maior valor afetivo em lojas físicas.

Logo, é um modelo que veio para ficar. Ainda que tenhamos que manter uma pequena parcela de postos físicos para atender a um público marginal que prefere o atendimento presencial, a maioria das transações será feita à distância. O dominante será um novo formato, em que a capilaridade física será menor e a disponibilidade ao atendimento virtual irá crescer. E as ARs deverão se adaptar a um modelo que tem gestão, métricas e parcerias diversas das atuais.

Por outro lado, as ACs e, principalmente, as autoridades regulatórias deverão avaliar os limites desse modelo e a potencial automação total da emissão de certificados. Muitos analistas têm previsão de uma grande crise econômica que se seguirá à atual crise sanitária. Garantir a existência de pequenos e médios negócios e os empregos que geram será fundamental para manter a atividade econômica em melhores patamares. É uma luta pela sobrevivência da economia produtiva e da ocupação das pessoas versus uma automação “burra” do ponto de vista humano.

Pessoalmente, acredito que a evolução da economia e dos negócios deve ter como princípio básico a melhoria geral das condições da sociedade como um todo. Creio que este será um dos grandes aprendizados dessa crise. Neste sentido, a manutenção do papel das “novas ARs” no processo tem a função essencial de garantir segurança para os clientes, a manutenção de pequenas e médias empresas e os empregos de milhares de agentes de registro, que construíram a segurança da internet no Brasil.

Bruno Linhares é diretor da  Associação das Autoridades de Registro do Brasil (AARB) 

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